Uma guitar band com os ouvidos no passado e os olhos voltados para o futuro – assim é Vellocet; onirismos lisérgicos, reverberações fugidias dos mid/late sixties, esquecidas melancolias harmônicas, mistérios de timbres deformados e, no meio de tudo, um ziguezague lewiscarroliano de imagens, como que consumando uma improvável versão sônica para “Alice Através do Espelho”.

Aliás, não faltam referencias especulares ao Vellocet: quando o grupo executa “1967 On My Mind”, por exemplo, impossível não percebermos ao redor flashes da mesma swingin’ London que um dia se viu às voltas com os delírios iridescentes de Syd Barret/Pink Floyd. Adiante (via paradas estratégicas em Big Sur, Laurel Canyon, Sausalito e adjacências), a paradisíaca west-coast norte-americana
acode pelo regurgitar de acordes jingle-jangle à la Roger McGuinn ou, ainda, pelos melismas evocativos de um Brian Wilson, transtornado por ocasião daquela fantástica obsessão chamada “Smile”.

Por outra bizarra dobra de tempo, se insinuam reverberações da era shoegazer e do conglomerado Creation; uma tábula rasa no qual o vazio total é confrontado com a supressão do já ouvido. O absurdo é evocado por langorosos paradigmas sônicos, filtrados a partir das criações formuladas pelos insulares Chapterhouse, House Of Love, Ride, Slowdive, Levitation, Moose, The Boo Radleys, Teenage Fan Club, Biff Bang Pow! e My Bloody Valentine.

Na dimensão paralela em que flutua a música do Vellocet, a realidade é enxergada pelo sonho. Há uma fratura imprecisa entre esses dois universos, e, para passar de um para o outro, é preciso antes se submeter ao rito, arrombar a porta, entrar na toca, cair no poço, atravessar o espelho. Ou - parafraseando o Rei Lagarto – “break on through to the other side”.

Para aqueles que ousarem fazer tal passagem, haverá indagações sobre
amores perdidos (“Fools Gold Song To The Emperor”), prazeres sinestésicos (“Skating Under Candies”), caleidoscópicas texturas (“Highway To A Dream”), metáforas/ metamorfoses de palavras (“Friday Night”, “Only Gift”), reversões de tempo e espaço (“Minion Mothers”), jogos de sentidos (“Dreamsight”).

E do lado de lá, onde a profundidade se faz superfície e a escuridão jorra turbilhões de arco-íris, estará pairando o paradoxo do Vellocet; um grupo cujas invenções parecem sugerir que a psicodelia já pode ter um fim – ou um novo começo.

ARTHUR G. COUTO DUARTE

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